Segunda-feira, Outubro 17, 2011

O que queres?



O que queres tu de mim? O que quero eu de ti? Perguntas que se sobrepõem e são construídas diariamente por entre um baralhar de pensamentos que nos leva à interrogação constante do que queremos nós uns dos outros.


Percorremos os dias sem saber porque batemos à porta ou porque esperamos que nos batam à porta se o sentimento que completa o espaço é o da constante solidão. É preciso não saber o que somos para que as interrogações se coloquem de forma tão evidente nos relacionamentos interpessoais do dia-a-dia.



Actos irreflectidos que demonstram a confusão mental que nos envolve neste ambiente em que a vida é construída por conceitos e emerge em fundamentos efémeros. O que parece ser não é, mas que mais saberemos nós fazer senão fingir o que não é para tentar que assim o seja à força?



Interrogações sem resposta exterior mas que podem encontrar uma resposta interior, porque por essa não teremos nunca que esperar, o que querem de mim? Não! O que quero eu de mim? Porque o que eu quero de mim terá que ser o que queres de mim, nem mais, nem menos, se não for, não queiras nada de mim porque não irei querer nada de ti…

Quarta-feira, Setembro 14, 2011

Delírio da Posse



"Não confundas o amor com o delírio da posse, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer. (...) O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca."

Antoine de Saint-Exupéry, in "Cidadela"

Quarta-feira, Agosto 31, 2011

Já nem sei se...


"In desperate love, we always invent the characters of our partners, demanding they be what we need of them, and then feeling devastated when they refuse to perform the role we created in the first place."
— Elizabeth Gilbert (Eat, Pray, Love)



Já nem sei se é calmo, sereno, pacífico e sem tormentos, silêncios e murmúrios sem grande expressão ou gritaria, palavras certas, cordatas, tranquilas no desapego e neutras roçando a indolência ou se isso é comodismo…


Já nem sei se é agitado, perturbado e desejoso, compulsivo e cheio de vontade, inquieto nas horas vagas, exaltado nos silêncios e intenso nas palavras, impulsivo nas acções e desmedido sem nunca ser bem pensado, sentido no seu expoente máximo ou se isso é dependência…


Já nem sei se é controlado, premeditado por isso pensado, envolto em obrigações e responsabilidades, consequências da maturidade, cobrado e vigiado, orientado para assim ser bem comportado, tempos contados, palavras duras e realistas do que deveria ser ou se isso é alienação…


Já nem sei se é desprendido, individualista mas presente, entre palavras essenciais e lógicas fundamentais, orientação pedida para somente as funções requeridas, nada mais do que é necessário, não reclamar nem exigir mais, sentir sem exortar complexidades ou se isso é oportunismo…


Já nem sei se é exigente mas sempre acompanhado, cheio de comportamentos dedicados, desesperos e angústias de mais e melhor, mudanças exigidas e perfeições desejadas, suspiros de cansaço, tarefas redobradas, sacrifícios não pedidos, consertos assíduos e vigorosas solicitações ou se isso é insatisfação…


Já nem sei se…

Segunda-feira, Agosto 29, 2011

Pseudo Alice no País das Maravilhas


Pseudo Chapeleiro Maluco: Tens isto e aquilo, tens tudo, estes que estão, são, adoram, completam, imensos, presentes, vastíssimos, existentes, como que tudo preenchido, pleno, admirado, real.
Pseudo Alice: Então porque parece tudo tão vazio?
Pseudo Chapeleiro Maluco: Porque ainda não chegaram do almoço!

Terça-feira, Agosto 09, 2011

Problema...




O problema da falta de palavras, diálogos incompletos e mensagens imprecisas é a confusão da realidade, conjugado de imediato com o receio do já vivido, antecipação de contrariedades e baralhação de intenções e sentimentos…


A impossibilidade de evolução e vivência coerente perante silêncios…

Segunda-feira, Julho 25, 2011

Aproveitar o silêncio...


Dentro de quatro paredes só quem lá está dentro é que conhece o espaço, está presente nos momentos, sente o ambiente. O conhecimento existe através da experiência, sentimentos não se estudam, não se tira licenciatura ou mestrado sobre o que cada um sente ou deve sentir, não existem fórmulas e teorias para viver a vida a não ser vivendo…


É solitário porque cada um conhece os seus tormentos e demónios, o que sentiu e o que passou, embora a empatia e a afinidade podem contribuir para uma partilha momentânea, cada um vive por si e sabe de si, ninguém mais sabe de nós a não ser nós mesmos…


Espreitamos por uma escotilha durante alguns segundos e achamos que muito sabemos, porque trazemos para a conversa as teorias e as suposições, misturadas com as ideias pré-concebidas e as generalizações e assim magoamos, porque falamos demais, porque achamos que ajudar é falar mais que ouvir, não é ajudar a sentir mas sim impor o nosso ritmo, pressionar à decisão e apressar a chegada de conclusões para assim o livro se abrir ou fechar de forma apresssada, terminando capítulos e rematando teses, normalmente bem intencionada cooperação mas pouco proveitosa…


Existem dois momentos que muito se fala e muito se devia calar, na união e na separação alheia, há momentos em que se devia ouvir, pausadamente, sentir em partilha, pegar na mão e esperar, mas principalmente ouvir, mas poucos estão para ouvir, muitos aparecem para falar…


Solitário é a falta de companhia para sentir, nada é mais triste do que as suposições e hipóteses fundamentadas em ideias pré-concebidas, experiências próprias e teorias da vida, a vida não tem livro de instruções, não tem mapa, nem tão pouco guia de viagem, teorias pouco se aplicam e regras não se adequam, a vida vive-se e sente-se…e cada um tem a sua, sabe o que viveu, o que sentiu e o que passou, cada um fala de si e permite ao outro simplesmente que sinta na sua presença…



O equilíbrio e a maturidade na convivência está sem dúvida em permitir sentir e saber calar…

Quarta-feira, Abril 27, 2011

Caramelos



Mesmo depois de três décadas de vida, obstáculos ultrapassados, experiências variadas, inúmeras tentativas, objectivos conquistados e provas dadas, podemos nos sentir completamente perdidos, sem saber que rumo escolher, sem perceber o que se está a passar, sem discernir o certo e o errado, o bom e o mau, o conveniente e o supérfluo, sensações semelhantes às de uma criança perdida no mundo desconhecendo os seus meandros e a realidade.


A vida por vezes faz-nos regredir a uma fase de completa indecisão, confusão e desconhecimento, comparável à infância, quando muito é o que nos assusta, inquieta e amedronta, mas sem a pitada de vontade de experimentar o desconhecido ou viver na incerteza, isso não conseguimos recuperar de cima das nossas três décadas de vida, afinal, já sabemos que muitas destas sensações por vezes trazem dissabores.

Há alturas em que parece que voltámos à infância, com vontade de bater com o pé no chão, armar uma birra, mostrar descontentamento, insatisfação, frustração, medo. Medo que a vida seja só isto, um aglomerado de desilusões, um amontoado de incertezas, uma constante falta de reconhecimento.


Na infância procuramos nos resguardar no seguro e confiável, tentando perceber a forma de ultrapassar os desafios e as dificuldades, procuramos uma orientação, um alento, mimo para nos dar ânimo.


Em crescidos tentamos ser fortes, enfrentar o nosso destino mesmo com todas as mazelas e as más experiências que já trazemos, mesmo sem perspectivas e com maus pressentimentos, tentamos seguir o caminho com optimismo ou costernação.


Os anos passam mas o que será que mudou? Muito crescidos? Talvez, mas hoje acalmei a minha criança com três caramelos…

Quarta-feira, Março 16, 2011

30 Anos Depois...




Apareci com o desejo de transformar, persisti sempre para prolongar, aproximei mas nem assim foi para brilhar, excedi por pressentir e assim tentei evitar, andei só para compensar, voei sem embater e pude atinar, saltei por querer observar, surgi sem esperar, sucedi a ideais, rompi e assim passei a ambicionar.

Precisei de ter para me encontrar, tentei para conseguir e alcancei só porque queria percorrer. Senti sem me importar, arrisquei para conquistar e pretendi sem apetecer. Acreditei em ilusões, valorizei assombrações, envolvi experiências e calei sensações.

Contei os minutos para não deixar o tempo passar, acreditei e assim passou a existir, chamei e não ouvi resposta, dei simplesmente sem adquirir. Expulsei para não ter mais que encarar, segurei para não deixar seguir, quebrei para depois poder consertar, gritei bem alto, exclamei com veemência, apregoei por saber.

Cobri para não deixar aparecer, recebi apenas porque pedi, tirei pelo simples prazer de ter, agarrei para assim demover, libertei de lá do fundo para surgir sem aviso, omiti para evitar o que inevitavelmente iria transparecer, eliminei para assim oscilar, excluí sem hesitar, risquei por medo de vacilar.

Aboli para assim não mais importunar, atraí sem tencionar, peguei só para não largar, recuperei sem nem um dia esperar, sussurrei pelo receio de me expressar, empreendi para não querer parar de tentar, experimentei práticas, analisei sensibilidades, observei tentativas.

Dominei para assim tentar acrescentar, cativei sem a mínima necessidade de exaltar, sujeitei por não saber como solucionar, ousei só para demonstrar, tomei sem a sabedoria do que estaria a realçar, colhi o que tinha acabado de plantar, arrecadei para depois poder usar, apreciei individualidades, estimei figuras únicas, admirei as eminentes ligações.

Sofri para fazer notar, consenti só mesmo por aceitar, aguentei para tentar assim conciliar, passei sem sequer olhar, conheci para assim poder assimilar, aprovei porque tinha mesmo que lá estar, aceitei depois de assustar, admiti sem apreensão, acedi às contrariedades.

Subi só para começar, alterei porque só assim poderia continuar, avancei devagar para conquistar, modifiquei sem medo de assim entalar, prendi a respiração quando não acreditei, bloqueei só por estar a descobrir, mudei para assim existir, cresci sem intenção, multipliquei para assim estar, progredi só por me achar…

Terça-feira, Fevereiro 01, 2011

Quem diria!




Nos acontecimentos que deveriam ser excepcionais, nos momentos que deveriam ser relevantes ou nos aparecimentos que deveriam ser dignos de exaltação, o que importa não é o desmedido reconhecimento a roçar o exagero. No equilíbrio da auto-estima, do ego, das inseguranças e dos medos conseguimos comandar os nossos sentidos a absorver somente o que realmente importa, não esperar muito e não se importar com a falta.

Para quem já sabe um pouco da vida, cedo aprendeu que os cumprimentos eufóricos, os feitos demasiado elogiados não são necessariamente sinónimo de reconhecimento nem de competência. Agradar a todos, esperar valorização exterior, querer ser reconhecido antes mesmo de ter começado a agir será imaturidade, falta de vivência ou será mesmo falta de inteligência?

Nos feitos, nas conquistas, nos momentos de evolução, nas chegadas, nas partidas, na novidade a verdadeira euforia advém da sensação interior de nos termos superado a nós mesmos. O melhor reconhecimento, o melhor elogio, a melhor sensação é de exclamarmos para dentro de nós: “Quem diria!”.

Quinta-feira, Janeiro 20, 2011

Qualidade...


Dizem que nos bons momentos apercebemo-nos da quantidade de pessoas que nos rodeiam e que nos momentos maus da qualidade. Carácter e natureza verdadeiramente humana discernimos na dificuldade e na tristeza, comportamentos sensíveis e caridosos são necessários nos maus momentos. Ocasiões repletas de alegria e bem-estar são oportunas à formação de amplos agregados de pretendentes à partilha.

Mas como se caracterizam esses bons momentos, que angariam inúmeros participantes à partilha? Não serão esses bons momentos, que inundam a nossa envolvente, caracterizados apenas pela passividade, pelo bem-estar, pelo estado morno que transmite contentamento mas num grau controlado? Nos bons momentos que representam êxito e evolução, repletos de actividade e dinamismo, o que nos apercebemos aí? A quantidade, ou será que por incrível que pareça apercebemo-nos também da qualidade?

Estarão realmente muitos dispostos a partilhar e assistir a essa felicidade, a esses bons momentos? As conquistas, os sucessos e o dinamismo dos demais não acaba por nos pôr em causa? Impor de forma brusca a realidade que todos estão aptos a alcançar bons resultados e bons momentos, e que o poder está realmente nas nossas mãos e a causa da maioria das nossas frustrações e infelicidades é responsabilidade nossa?

Saber partilhar o êxito e o sucesso de quem nos rodeia não acaba por ser a demonstração mais evidente da nossa resolução interior? Partilhar a felicidade sem reticências, sem apontar o dedo ao percurso percorrido, sem pôr em causa o êxito e as conquistas não será a verdadeira mostra de grandeza interior e estima? Será que conseguimos distinguir a qualidade de quem nos rodeia também nestes bons momentos, ainda mais que nos maus?

Com as considerações que fazemos sobre os outros, estamos a mostrar muito mais o que nós realmente somos do que o que os outros são. Na maioria das atitudes que temos para com os outros e para com alguns acontecimentos estamos a revelar o nosso interior, não passando nunca despercebido.

Nos bons momentos, nos verdadeiros bons momentos, repletos de realização pessoal percebemos muito sobre aquilo que fomos, o que fizemos, a razão de comportamentos e posturas que em tempos nos caracterizaram, mas também conseguimos apreciar com muito mais discernimento quem nos rodeia, pesar a estima, estimar os afectos e apreciar a boa resolução.

Em conclusão depararmo-nos com a consciência que no mundo existe muita gente feliz e realizada, que nos sabemos rodear de muitas delas e que as escolhas por nós preconizadas nos últimos tempos, de manter ou largar, fizeram todo o sentido. A busca da realização pessoal é um dos verdadeiros segredos da vida, para nos apreciarmos de outra forma e para olharmos para o mundo ao nosso redor com outros olhos…

Segunda-feira, Janeiro 03, 2011

Reforço Positivo




Talvez perante o trauma dos impedimentos e constrangimentos vários, de vidas presas e controladas, do excesso das dificuldades e das mazelas causadas pela vida, surgem o facilitismo e o presentear desmedido sem merecimento ou esforço demonstrado.

O reforço é unicamente e somente positivo, porquê? A vida é mesmo isso? Tudo é entregue de bandeja, basta querer, basta apontar ou indicar que nos é entregue? Somos merecedores de tudo o que queremos? O galardão é entregue por antecipação? Queremos tudo, aqui e agora, sem batalhar para o conseguir?

Na geração do quero, posso e mando, a ambição é vivida ao extremo, tudo tem que chegar cedo e ao seu expoente máximo, as birras, os amuos, o bater com o pé no chão são quase constantes, é o querer receber o que só deveria chegar no final. Reforço positivo simplesmente porque sim, esforço, paciência, perseverança, persistência e estabilidade deixam de existir no vocabulário e na mentalidade arrogante em que tudo é simplesmente merecido, somente porque queremos.

No reforço positivo emergiu a ideia que tudo é possível, tudo é merecido e tudo tem que ser conseguido, a cegueira infantil quase comparada a estar diante de uma montra cheia de brinquedos a apontar para os que queremos e estes a serem embrulhados rapidamente e sem demora, basta querer…

Envolvidos em discursos elogiosos e de exaltação das capacidades fica esquecido que tudo na vida não é para quem quer é para quem pode, e a diferença entre o poder e o querer é enorme quando vivemos na ilusão que basta querer, quando nada nos satisfaz, quando a imensidão das ambições já transcende a realidade, quando só se olha lá bem para cima sem medir os degraus para lá chegar.

No tumulto da subida manifestam-se as vontades disfarçadas de boas intenções, demonstram-se as inseguranças disfarçadas de agressividade, nascem medos disfarçados de prudência. O querer surge aos empurrões, com uma mistura de raiva e subserviência, o único objectivo é atingir o ponto alto, conseguir agarrar o que já nem sabemos muito bem o que é, passar à frente, chegar depressa, ter tudo.

Mas o que é tudo? De que vale chegar depressa? O que queremos mesmo agarrar? Qual é mesmo o ponto mais alto? Na maioria das vezes nem se sabe, nem se pensa nisso, é simplesmente o reforço positivo prometido para aí começar, aquele reforço positivo que nos habituámos, que tudo é merecido, tudo pode ser conseguido, basta querer, não se espera, não se trabalha para isso, tudo pode ser simplesmente dado antes do percurso devido para estimular a caminhada.

Na euforia e exaltação do reforço positivo a desilusão, a insuficiência, o descontentamento é quase constante, a verdadeira motivação é substituída por posturas acomodadas e excessos de confiança de quem recebeu a medalha antes sequer de passar pela partida, a arrogância substitui a confiança e o desprezo pela envolvente surge pela aquisição antecipada. Esquecem-se valores, diminui-se a audácia, rebaixam-se as virtudes, retrai-se o mérito.

Mudam-se os comportamentos, a perspectiva, o caminho a percorrer e a forma como é percorrido, mas não se conseguem mudar as consequências, os resultados, as sequelas e a conclusão final acaba por ser idêntica, por mais reforço positivo que possa surgir a vida continua a ser difícil, cheia de barreiras e dificuldades, o que queremos pode nos ser dado de bandeja uma vez ou outra, mas na maioria da vezes é preciso ir à luta, esforço e dificuldade transparecem mais cedo ou mais tarde no nosso dia-a-dia, e quando assim acontecer, e não existir reforço positivo, aí sim distinguem-se aqueles que existem e os que vivem…

Quinta-feira, Dezembro 23, 2010

Metas




No atingir de metas e na execução de cada passo o resultado obtido é vivido pela importância dada. Considerar algo vital e imprescindível, responsável pela felicidade, sucesso ou sentido da vida faz com que cada abanão ou escorregadela pareça o fim do mundo mas que a derradeira conquista ou superação represente simplesmente um enorme alívio.

No percurso exaustivo em que consideramos algo exterior a nós, ou um simples passo num percurso de vida algo imprescindível, quando nos iludimos exaltando ao seu expoente máximo uma possível conquista final mais do que o percurso percorrido, o chegar, o atingir, o conseguir pode significar simplesmente o derradeiro e esperado descanso.

O verdadeiro sentido da vida não estava onde seria esperado, e para cada um o sentido pode ser bem diferente, e na emancipação do que é fundamental e na compreensão do essencial e importante à existência o que seria considerado importante passa a ser simplesmente banal. O percurso, esse sim, deve ter tido uma razão de ser, a demora ou os entraves colocados têm que ter um significado maior do que a simples injustiça ou dificuldade da vida.

Através da procura de algo mais, da não banalização do essencial, da apreciação do percurso em si, seja ele sinuoso ou não, encontramos um sentido mais enriquecedor a esta passagem que é a vida. Não pode ser tudo felicidade ou infelicidade, sucesso ou insucesso, conseguir ou não conseguir, passar ou não passar, é preciso que a trajectória seja proveitosa e útil, é preciso ganhar anti-corpos, aprender algo mais, viver mais do que a dualidade dos resultados.

A realidade é que seja qual for o resultado final, este torna-se trivial quando percebemos que este pouco acrescentou, pois, a jornada tão completa de embaraços, contrariedades, emoções, perturbações, aprendizagens, apresenta sempre um resultado positivo, apresenta o resultado da evolução.

Segunda-feira, Dezembro 20, 2010

Até parece que já é...




Dizem que é a altura de amor e companheirismo, dizem até que é a altura da paz e de praticar o bem, que todos convivem em plena harmonia, sem existir espaço para rancores, desavenças e infelicidade. Sem procurar a essência verdadeira das comemorações, simplesmente a viver o momento como é suposto, seguindo hábitos, tradições, padrões.

As cores, as luzes e o desmedido gastar para mostrar que gostamos, o excesso e a abundância são palavras de ordem. Misturam-se sentimentos com coisas, mistura-se obrigação com contentamento, o espírito envolto no que tem de ser e no que realmente é, deixando assim difusa a autenticidade da quadra.

Grandiosidade e exuberância dos tamanhos, das cores, dos brilhos, uma lista interminável em que rapidamente todos eram corridos um a um com coisas sem significado mas com aparência e conteúdo frívolo como era suposto, mesmo que não tenha o mínimo sentido, mesmo que não seja apreciado, mesmo que no ano seguinte siga a rota para outro caminho da intenção da dádiva.

Uma correria excessiva, chegar a todo o sítio, chegar a todos, fazer tudo o que é preciso fazer a tempo e horas, não falhar a ninguém. As inevitáveis e eternas escolhas, a omnipresença para colmatar as inseguranças e minimizar os danos, desdobramento físico, vazio de presença espiritual e emocional, importante é o que o aparenta ser.

O tocar estridente e igual a toda a hora, escritos semelhantes, sem grande fundamento, transmissão de desejos generalizados, mas pelo menos de alguma forma lembrados. Esperas ansiosas pelo toque repetido, significando o apreço dos demais, comparações inevitáveis do toque na zona envolvente, notar as faltas, os esquecimentos, julgar as razões, crucificar o desprezo para, por fim, colocar na lista de resoluções de novo ano as consequências de tamanhos descuidos.

Altura para reviver tristezas, quem falta, porque falta, como poderia ser, como deveria ser, o esquecimento da valorização do real, a ilusão que se é para ser perfeito, cheio de amor e paz não deveriam existir espaços vazios, lugares desocupados, prováveis infortúnios, problemas concretos, decadências inevitáveis. O ideal da época perfeita reaviva o descontentamento pelo que não é como deveria ser.

O vazio desmesurado é o sinal da confusão das intenções, dos valores, dos propósitos, como que perturbações imensas no sentido real da vida, no sentido real da quadra, que é vivida através do que parece ou tem que ser mas pouco aconchegante por dentro.

Sexta-feira, Dezembro 10, 2010

Fingimento...




Esbracejar, gritar, reivindicar os direitos dos mais fracos, dos que precisam, apontar o dedo ao que está errado, atacar os que estão bem, enfrentar as injustiças, encontrar as lacunas, apregoar conceitos reinventados, repreender comportamentos imperdoáveis, zangar pelo infortúnio dos demais. Fingimos que nos importamos com o mundo…

Lembrar os defeitos, colocar em evidência as desventuras e as desvantagens da permanência, anotar as falhas, designar todos os obstáculos, mostrar a completa imperfeição da existência, rejubilar com a partida, exaltar a renúncia e gabar a capacidade de desprendimento. Fingimos que esquecemos quem partiu…

Elogiar as evidências, engolir o orgulho e apreciar o que na verdade desperta cobiça ou indiferença, enfeitar as palavras, as teorias e a aparência, reinventar valores e opiniões, ocultar desprezo e embaraços, elevar atitudes e feitos. Fingimos que apreciamos a existência dos restantes…

Utilizar palavras caras, pensamentos rebuscados e conjunturas elaboradas, questionar decisões alheias e funções variadas, atirar para o ar lógicas óbvias, especulações fictícias e hipóteses irreais, verbalizar demagogias e fabulosas teorias. Fingimos que percebemos alguma coisa do que estamos a falar…

Sorrir de boca fechada, exprimir um olhar de indiferença e de força, cerrar os dentes para não deixar as palavras sair, elevar o pensamento e fazer o que tem que ser feito, atacar a dor interior e o afrontamento exterior, concentrar nos pensamentos necessários e manter a feição semelhante nos diferentes momentos. Fingimos que não magoa…

Terça-feira, Dezembro 07, 2010

Leituras Soltas III - Capicua[s]


Lançamento do Leituras Soltas III (Fnac e editora O Liberal) que contará com a colaboração de escritores como Viale Moutinho, João Dionísio, Anabela Machado, Joana Homem da Costa, Rui Nepomuceno, David Fazendeiro, Beatriz Campos, Asdrúbal Vieira e Gizela Silva. E de António Barroso Cruz enquanto coordenador do projecto. O Lançamento será no dia 8 de Dezembro, pelas 17h00 no auditório da Fnac no Madeira Shopping.
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Capicua[s]


(...)O silêncio sempre esteve muito presente, sempre foi muito incómodo, aquelas horas de capicuas eram perfeitas porque era tempo de dizer qualquer coisa naquele silêncio desconfortável em que vivíamos, no silêncio das horas a passar, dos dias a passar, mesmo dos anos a passar e tudo mudava mas nós, nós não mudávamos, se é que algum dia existimos.


Aquelas duas pessoas que passeavam no carro, não sei se realmente existiram, ou talvez tenham existido mas, durante tantos anos, o “nós” durou o tempo de uma capicua no relógio digital. Aparecíamos e desaparecíamos como as horas de capicua, mas nunca fomos reais como queríamos ser, seríamos sempre um certo minuto numa hora do dia. (...)


Joana Homem da Costa in Leituras Soltas III

Segunda-feira, Dezembro 06, 2010

Medo...



Tenho medo de perder o que tenho, o que tinha e o que penso ter quando conseguir atingir o que pretendo. Tenho medo do que foge, desaparece e sai de perto sem deixar rasto, tenho medo do que se retira quando já não faz sentido, do que se abandona quando esvazia a alma, tenho medo do que se solta, do recuo das acções e das palavras, do afastamento das sensações e dos sentimentos, tenho medo da negação das evidências e do que voa para longe. Deixarei de ter medo quando perceber que o que desaparece não faz mais falta…

Tenho medo de que surja sem aviso prévio, o que tinha que aparecer e o que ainda poderá romper. Tenho medo do que nasce quando ainda não existem condições para nascer, do que desperta na imensidão da saudade e das lembranças, tenho medo do crescer desmesurado e do brotar excessivo, tenho medo do erguer em sobressalto. Deixarei de ter medo quando entender que tudo aparece por alguma razão…

Tenho medo do que se sente por entre a vida, o que tinha que ser sentido e o que ainda poderá despoletar sentimentos desconhecidos. Tenho medo de sentimentos renovados e de sentimentos desconhecidos, tenho medo de sentir a necessidade de mudança e a perturbação de sentimentos acomodados. Tenho medo do abalo no certo e da perplexidade no diferente. Deixarei de ter medo quando compreender que a vida tem que ser sentida…

Tenho medo do que se fala por aqui e por ali, o que tinha que ser falado e o que ainda poderá ser dito sem o mínimo controlo das palavras. Tenho medo do que é comentado sem fundamento e murmurado sem que se escute. Tenho medo do que é articulado sem cuidado e das verdades que nascem no discurso anunciado, dos dialectos rigorosos ou das palavras ultrajantes. Deixarei de ter medo quando atingir que o que é dito não é a essência…

Tenho medo da crítica construtiva e da ofensiva, o que tinha que ser criticado e o que ainda poderá ser censurado por verdade ou por mentira. Tenho medo da apreciação superior ou inferior dos feitos e dos comportamentos, da censura que impede e retém as vontades, tenho medo dos comentários que inibem e da satiriza que magoa, dos momentos de verdade que advêm do conselho experiente e corajoso de quem já viveu. Deixarei de ter medo quando absorver das críticas o que realmente se aproveita…

Tenho medo do que se faz, o que teve de ser feito e o que ainda pode ser desenvolvido na actualidade dos factos. Tenho medo dos desempenhos eficientes e dos envoltos na desorganização, tenho medo dos desenvolvimentos ordenados e essenciais que permitem a reorganização das ideias e dos comportamentos e da arrumação ajustada para operacionalizar os limites, tenho medo da imitação exagerada que substitui o pensamento próprio. Deixarei de ter medo quando assistir às acções a impulsionarem os feitos…

Tenho medo de um regresso, o regresso que foi invocado e o que ainda pode surgir sem possibilidade de escolha. Tenho medo do retorno de propósitos e procedimentos, da volta de mágoas e espíritos que em tempos completaram os dias, da regressão de ideias e pensamentos pelo inconsciente mal habituado e acomodado, tenho medo do reviver de sensações e da convicção pelo irreal. Deixarei de ter medo quando assimilar que os regressos são solicitados pelo nosso próprio eu interior…

Quinta-feira, Novembro 25, 2010

Erva Doce




Os olhos postos no mundo mas a mente focada e direccionada para o óptimo e o quase perfeito, a força interior transparece em todas as atitudes, misturada com o coração ferido pela dor do passado, do presente e até da ideia de futuro.

Um papel único, desempenhado de forma sublime, a vida ensinara que não é tudo como queremos mas que batalhar dá uma confiança infinita. O segredo está na força, está no encontro do que tem que ser desempenhado com o sentido regrado e contido.

A mente trabalhada funciona sempre no seu melhor, parar é a forma mais fácil de partir sem que ninguém dê por isso, a existência não é e nunca foi o simples predicado para viver, é preciso saber viver.

A vida dá o que conseguimos aguentar, e em algumas vidas é dado muito porque simplesmente é possível aguentar com muito, bom e mau, o bom é dado em quantidade quando a humildade não deixa esquecer quem somos e o nosso papel, o mau para quem sabe lutar e aceitar sem perder a força interior e a cabeça erguida.

A vida longa nem sempre é sinónimo de felicidade, mas acontece por alguma razão, o papel entregue desde a nascença de durar o tempo suficiente para marcar a diferença, e enquanto a existência tiver um proposito a partida estará longíqua. Inteligentes são aqueles que entendem a razão da permanência e que a sabem usar com proveito.

A força e determinação sustetam vidas, sem deixar que a indiferença e a preguiça tomem conta. Tudo o que a vida dá aproveitado ao máximo para construir anti-corpos, barreiras, suportes, o uso da mente na sua plenitude permite a racionalização mas também o sentir desmesurado das vivências. A elaboração das ideias permite, mesmo na dor, o percurso de vida em passo certo e acompanhado.

A organização permite o descanso e a clarificação das ideias, um dia de cada vez. O aproveitamento de cada matéria prima da vida, do mundo, do que de mais banal existe, mas só assim apreciado no seu todo, na sua insignificância. Gratidão e valorização dos pequenos e grandes momentos da vida através de simbolismos da vida real.

Erguer os braços e fitar de frente a vida, empurrar abruptamente as infelicidades e as desventuras, a força vem principalmente de dentro, de dentro para fora. A cura, a solução e a aceitação serão o reflexo do interior organizado e da vida pensada.

Longevidade mede-se pela existência sentida, no papel que foi entregue a cortina demora a baixar, no final de cada acto ouvem-se palmas e ovações mas também assobios, a existência é feita de tudo um pouco, só assim a interpretação é completa.

Segunda-feira, Novembro 22, 2010

Saturação...




Alguma saturação de…

Teimoso disfarçado de coitado…
Pobre de espírito disfarçado de inocente…
Convencido disfarçado de seguro…
Arrogante disfarçado de assertivo…
Insolente disfarçado de astuto…
Inábil disfarçado de humilde…
Imitador disfarçado de talentoso…
Snobe disfarçado de fino…
Emproado disfarçado de erudito…
Imprudente disfarçado de valente…
Bronco disfarçado de rústico…
Rude disfarçado de desgraçado…
Passivo disfarçado de ordeiro…
Ignorante disfarçado de tranquilo…
Incapaz disfarçado de desajeitado …
Subjugado disfarçado de pacato…
Inútil disfarçado de disciplinado …
Incompetente disfarçado de submisso…
Bruto disfarçado de firme…
Duvidoso disfarçado de categórico…
Fraco disfarçado de real…
Maldizente disfarçado de sincero…
Instalado disfarçado de garantido…
Indiscreto disfarçado de comunicativo…
Adversário disfarçado de companheiro…

Feminismo!?


A emancipação da mulher foi simplesmente subjectiva? Ou somente adequada ao que nos dava jeito? Quisemos os empregos, a independência financeira, o poder de decisão, mas continuamos a querer manter acesa a ideia que o homem é o culpado de tudo o que nos acontece, que eles é que são os mauzões e nós umas tristes vítimas. Ganhámos o poder na nossa vida somente para o que nos interessa? No que dá jeito ainda culpar os homens queremos manter as mentalidades de 1914?

O espírito sofredor das mulheres de antigamente que sofriam de amor, sem poder fugir de tal desventura, que eram vítimas de homens austeros, desinteressados que só as faziam sofrer pensando única e simplesmente no seu proveito ainda quer ser mantido nos dias que correm em que todos temos hipóteses de escolha. Quem temos ao nosso lado e o caminho que escolhemos é responsabilidade de quem? Nossa? Do destino?

Sofrimento existe, mas existe sem forma e género? Sofrimento existe sempre que existem sentimentos e todos estamos aptos a sentir. Nos considerarmos detentoras do sentir, do sofrer a até do pensar, e catalogar os homens como seres desprovidos de tais sentimentos parece inteligente? Então se somos nós seres superiores aos habitantes de Marte, sentimos, sofremos, pensamos tanto, temos mais do que aptidões para saber escolher melhor, fazer melhor por nós e nos queixarmos menos.

O queixume, a vitimização, os suspiros completados pela argumentação que quem sofre é que sabe, e que a mulher que sofreu nas mãos de um dos terríveis habitantes do 4º planeta torna-se na mulher sabedora, vivida, astuta que já sabe que nenhum daqueles seres merece sequer o benefício da dúvida. Não será esta vitimização, este ataque continuado ou mesmo estes suspiros de mulher sofredora uma tentativa de desresponsabilização das nossas escolhas e opções de percurso de vida?

Nos dias modernos das mulheres independentes, ouvir uma mulher dizer que somos mais frágeis e vítimas não parece no mínimo estranho, a roçar até o absurdo? Estaremos ainda obrigadas a ser vítimas de um homem “abusador”? É algo de que não podemos fugir, porquê? Não adquirimos o direito à independência? Então não estaremos com ele porque queremos? E, logo, a culpa é verdadeiramente nossa se nos tratam mal, e não daquela espécie maligna que somos vitimas, em que todos se comportam de forma semelhante e se não o fazem mais cedo ou mais tarde irão o fazer?

O amor poderá ter consequências de sofrimento, como poderá nos fazer bem, mas será que podemos responsabilizar o amor, o amar demais, o sentirmos muito pelas nossas más escolhas ou pela ilusão que podemos mudar o outro para que este seja o nosso príncipe encantado? Quem não sofre, não lamenta, não acusa será que não ama, ou será que já descobriu que o amor não tem que ser necessariamente o continuado sofrimento?

Para quem acredita nos relacionamentos humanos, na partilha da vida entre duas pessoas, não será bizarro fomentar e apregoar que o homem não sente, não comunica, não sofre, e querer ainda assim encontrar o príncipe encantado? Se a espécie masculina é assim, porque queremos um? E se queremos um, será que os sãos e benignos quererão se juntar a quem os generaliza e coloca neste grupo de tiranos demoníacos sem se responsabilizar pelos seus actos e escolhas?

Se este discurso de propaganda que a espécie masculina é malévola e desprovida de sentimentos ou que são todos iguais, é preconizado por aquelas que dizem que sofreram, o discurso que a espécie não é assim tão má e que existe de tudo é linearmente associado a perspectivas naif, sorte ou pouca experiência de vida. Talvez quem não faça propaganda deste tipo de discurso não seja necessariamente quem nunca sofreu, nem tão pouco as mentalidades inocentes que ainda acreditam em contos de fadas, mas sim quem já percebeu que o poder da felicidade e da partilha da vida com alguém que valha a pena está mais nas nossas mãos que nas mãos do destino, e se tivemos uma má experiência a culpa poderá não ser da espécie em si mas sim da nossa escolha, normalmente caracterizada por padrões de acordo com as nossas vivências. Mudando os padrões, mudando a forma de escolha não mudaremos o nosso destino?

Se queremos a vida partilhada, não será o nosso complexo de superioridade, descrença e generalização da espécie masculina, um impeditivo gigante para um relacionamento saudável? Se somos aquelas que sentem, sofrem e pensam muito, não temos a obrigação de não nos prendermos em discursos fúteis e contraditórios? Ao sentir, sofrer e pensar muito no amor, nos relacionamentos deveríamos aprender muito, e alcançar assim o estado em que sabemos o que é melhor para nós, saber escolher mas saber também aceitar os outros como eles são.

De príncipes encantados está o mundo cheio e existem, pode é acontecer aquele não ser o nosso príncipe encantado e quanto mais cedo largarmos as crenças e generalizações sobre a espécie masculina, mais cedo abrimos portas e deixamos espaço livre para o certo entrar.

A generalização e a caracterização desmedida e pouco formada de espécies, impede a aceitação de nós próprios e dos outros assim como são, impede a felicidade e obstruí a visão e pensamento evolutivo. Sentir todos sentem, cada um à sua maneira, a vivência saudável entre Marte e Vénus está na aceitação, na admiração e no respeito. Sejamos verdadeiramente emancipadas e não limitadas.

Quinta-feira, Novembro 18, 2010

Alguns dias acordo simplesmente pessimista...


No mundo de hoje os que deveriam ser parceiros, companheiros e colegas passaram a ser opositores, concorrentes ou adversários. O que conquistamos, conseguimos ou merecemos passou a servir somente para ostentar e exibir, de preferência a ordenar e intimidar. A nossa grandiosidade é medida pelo que possuímos e alcançámos e não por aquilo que somos e melhoramos.

A verdadeira teoria do eu, depois eu e somente eu. Mas, tudo o que quero e espero da vida é medido e exigido de acordo com o tu, depois o tu e somente tu. Tu tens, tu conseguiste, tu tentaste então eu mereço, eu preciso, eu exijo. A parceria do eu e tu, conjugada no nós é linearmente para ser avaliada no eu quero, logo tu tens que, eu preciso, logo tu deves de, e no eu não gosto, por isso tu precisas de.

Os outros e a vivência com os demais passou a ser somente um jogo de interesses, disfarçado por laços de amizade, familiares, profissionais e até sociais. Os direitos e deveres passaram a estar meticulosamente arrumados, os direitos em nós e os deveres no tu, tudo encoberto com palavreados de cortesia, misericórdia fictícia, discursos e suspiros de comiseração e salamaleques de ocasião.

A doença dos outros é incómoda, o nosso esforço é incómodo, a tristeza dos outros é incómoda, mas em contrapartida a nossa doença deveria suscitar auxílio, a nossa falta de esforço deveria suscitar clemência e a nossa tristeza deveria suscitar companheirismo.

Não quero, hoje, fazer nada por ti, por mim, por nós, mas exijo que amanhã estejas pronto a fazer por mim, por ti, por nós. Trabalho, esforço e empenho é para ser praticado pelos outros, por nós basta somente o êxito, o sucesso, a ganância e a bazófia.

A dor, a tristeza, as dificuldades dos outros só servem para juntar ao nosso discurso de exigências, imposições, reclamações e até juízos de valor, para atacar e censurar são sempre bem-vindas as dores alheias, assim aumenta a lista e podemos apontar o dedo com mais material acumulado. O que fizemos, fazemos ou iremos fazer para ajudar o próximo? Possivelmente nada mais do que juntar a sua dor ao nosso discurso justiceiro, depois viramos costas, porque quem tem culpa ou deve agir? Isso, serão certamente os outros.

Os nossos insucessos, falhas e infortúnios têm sempre causas exteriores, o mundo, os outros, a vida. A verdadeira supremacia dos opostos, se estou triste é porque há pessoas felizes, se não tenho é porque alguém deve ter, nada chega, tudo é escasso, se não está, tem que estar em algum lado, a felicidade e o sucesso não são nossa responsabilidade, são simplesmente impedidas pelos factores exteriores.

Nós? Nós somos simplesmente a máscara da nossa existência sem grande responsabilidade e capacidade para o que quer que seja, nós nascemos para receber, porque a vida é vivida com a garantia que merecemos tudo pelo simples facto de existirmos. Existimos, logo merecemos ter tudo o que todos têm, principalmente o que nos é apelativo e queremos muito, o que temos, isso desde que seja inferior ou que alguém tem já não interessa nada, mesmo que seja mais do que outros usufruem.

Imaturidade vivida na sua exaustão e plenitude, não é infantilidade, daquela saudável que nos faz sonhar, não, imaturidade de achar que tudo é fácil, simples e deveria ser dado, fornecido ou entregue simplesmente porque sim, imaturidade ao ponto de fechar os olhos e chamar a negação no seu expoente máximo para que a vida seja somente garantias e dividendos, o resto, isso alguém que fique…

O que nós possuímos, conseguimos, conquistamos? Isso vale muito pouco sempre que ao nosso lado passar alguém que tenha mais, aliás, sobra pouco tempo e não existe grande vontade para pensarmos realmente em nós se estamos demasiado ocupados a ver se alguém possui algo melhor, se alguém conseguiu o que queríamos ou recebe mais da vida.

Já dizia Jorge Palma: “enquanto uns fazem figura outros sucumbem à batota, chega aonde tu quiseres, mas goza bem a tua rota.” A nossa rota será gozada pelos nossos conceitos, ideias e valores, a nossa rota será definida por nós através dos outros, é o entregar de mão beijada o nosso poder e esperar que o mundo saiba tomar bem conta dele, o olhar para fora mais do que olhar para dentro é a pura distorção da imagem do espelho, culpar e responsabilizar os outros pela nossa vida é a solidão na vivência e a desgraça do sucesso pessoal.

Simples discursos de apontar o dedo, bem espetado para a frente sem notar que neste gesto temos sempre 3 dedos a apontar para nós. Se tudo aquilo que dizemos, argumentamos, tudo o que nos queixamos, reclamamos, exigimos fosse dito em frente ao espelho os resultados seriam muito diferentes, por isso mesmo, neste momento vou ler este texto para a frente de um espelho, já volto, espero eu que diferente…

Saudade...


Saudade não se comenta, não se julga, não se conta, saudade sente-se, saudade está dentro de nós e é sentida não falada, não escrita. Saudade deverá ser o sentimento mais difícil de verbalizar, saudade na totalidade do sentimento é como uma incompreensão dos acontecimentos da vida, misturado com infortúnios, decisões conscientes ou abandonos necessários.

Saudade aparece de diversas formas, sente-se intensamente, raramente se cura, somente se aprende a viver com ela. Saudade surge de quem partiu, de quem fizemos partir, de quem a vida levou, dos lugares desaparecidos, da extinção dos sentimentos, da fuga da verdade, da retirada de garantias. Saudade até do imaginário, dos sonhos, das ilusões do pensamento, da negação das evidências ou do afrontamento das verdades.

Saudade poderia ser somente não ver, não ter, não ouvir, não tocar, mas na verdade, saudade pode ser somente não sentir. Saudade é a diferença, saudade é viver na lembrança, saudade implica a necessidade de tentar manter vivo um sentimento, saudade pode ser não saber, e pode ser não querer saber.

Saudade do que já não existe, saudade do que ainda existe mas está longe, do que já não temos conhecimento, da indiferença dos sentimentos. Saudade pode ser o sentimento que dói, que alegra, que desperta o desapego, que une, que fomenta o reencontro.

Saudade é não saber se ainda existe sentimento, saudade é não saber se fazemos falta, se somos relembrados, saudade é não saber quando a vida corre bem ou mal, saudade é parar de participar, agir, sentir em conjunto.
Saudade é tentar lembrar todos os dias a todas as horas como era, como cheirava, como soava, como se sentia. Saudade é insistentemente manter acesa a chama, não deixar partir pelo menos o que foi, porque foi, e para que serviu.

Saudade é a exclusão, o desespero, a dor, a recordação, o envolvimento. Saudade é a causa e a consequência. Saudade é hoje, o amanhã e foi o ontem, saudade é não saber o que sentir e é o sentir na sua plenitude. Saudade sente-se…

Quarta-feira, Novembro 17, 2010

Nada...


Medo é melhor que nada, dificuldade é melhor que nada, incómodo é melhor que nada, estorvo é melhor que nada, afazeres é melhor que nada…

Fadiga é melhor que prostração, enfraquecimento é melhor que prostração, pausa é melhor que prostração, espera é melhor que prostração…

Tentar é melhor que desistir, experimentar é melhor que desistir, procurar é melhor que desistir, arriscar é melhor que desistir, falhar é melhor que desistir…

Receio é melhor que nada, aguardar é melhor que nada, apetecer é melhor que nada, sonhar é melhor que nada…

Tudo é melhor que nada, porque nada é sempre nada mas tudo poderá ser tudo ou nada…

Sexta-feira, Novembro 12, 2010

E fez-se luz!

Foto: Rúben Andrade


Só para relembrar, se por acaso voltar a cair no esquecimento, descrença ou preguiça, que ele foi feito para funcionar, trabalhar, agir a até às vezes se cansar.

Só para relembrar, se mais alguma vez existir a ilusão, engano ou sugestão que deverá estar sedado, a funcionar a meio gás ou em "stand by" por receio de avaria que o seu objectivo, missão ou função é de estar em plena utilização.

Por isso mesmo, com o seu uso, actividade e vivacidade os resultados, desfechos e lucros são imensos, trazendo assim auto-estima, valorização e audácia ao seu dono, portador e mensageiro.

Cérebro, mente e alma foram feitos para terem actividade e a vida, a essência e a ocupação existem para conservar a nossa existência.

Terça-feira, Novembro 02, 2010

Quando eu era pequena...


Quando eu era pequena, diziam-me que o esforço compensava, que o trabalho dava bons resultados, que por praticar o bem recebíamos em dobro, que o bom acaba sempre por ganhar ao mau, que a mentira tinha perna curta e que a verdade viria ao de cima.

Quando eu era pequena os comportamentos menos próprios por parte de quem nos rodeava, como a inveja, o mal dizer, o gozo continuado e diário na nossa cara e nas nossas costas, a discriminação, o favoritismo por causas fúteis, o isolamento por incompreensão, a exclusão dos diferentes, a perseguição pela divergência e a controvérsia pelas aparências eram características da infantilidade e da simples imaturidade que desapareceriam com a chegada da tão esperada maturidade.

Quando eu era pequena acreditava, olhava para a vida dos crescidos com optimismo, pensava que quando lá chegasse tudo seria justo, correcto, integrado, respeitoso, democrático, íntegro, adequado, fundamentado, ajustado, lógico e completo.

Quando eu era pequena esperava ansiosamente, enquanto cumpria com tudo o que me tinha sido ensinado, por tempos melhores, por tempos de maturidade de pensamentos e atitudes, esperava encontrar o mundo dos bem resolvidos, dos sabedores e dos já vividos, aspirava pelo fim do mal estar na imaturidade.

Cheguei ao mundo dos crescidos e vi que nada era como esperava, mas que por ter sempre acreditado ainda hoje a minha imaturidade intrínseca em mim me faz ainda acreditar…

Terça-feira, Outubro 26, 2010

Interior vs Exterior




Será que o que realmente nos enfurece é o vazio no nosso interior ou a superioridade e grandeza do exterior dos outros?

Já alguém me dizia que das tarefas mais difíceis da vida é sair de si e olhar para si. Será que conseguimos realmente ter uma visão real de nós? Será que conseguimos sair de nós para olharmos para nós e, assim, avaliarmos de um modo honesto e sincero o que estamos a ver, da mesma forma que julgamos e apontamos o dedo ao Mundo que nos rodeia? E será que é possível olharmos em volta sem ver somente o exterior, as aparências, e não deixarmos que o amargo e o vazio que está dentro de nós influencie a forma como vemos o Mundo?

Como podemos ser felizes se estamos somente e prestar atenção à felicidade e infelicidade alheia, apreciando ao pormenor tudo e todos, argumentando, supondo, julgando um mundo de aparências composto por sucessos ou insucessos, felicidade ou infelicidade, paz ou inquietação que achamos que conseguimos decifrar nos outros.

Será realmente mais fácil opinar, julgar, avaliar, esmiuçar, particularizar, apreciar a vida dos outros do que a nossa? Provavelmente. Mas quais serão os possíveis resultados que iremos obter disso? Um simples e básico exercício mental e sentimental que cansa, ilude, despista, entretém, esgota, fatiga, frustra o nosso percurso mas que em nada altera a nossa vida e nos ajuda a sermos mais felizes.

O exterior dos outros pode parecer invejável, mas será que esmiuçado até ao seu interior já nos agrada assim tanto? Talvez não, mas parece importante para manter viva a nossa esperança por dias melhores que exista alguém que conseguiu chegar onde queremos chegar, parece até imprescindível que a culpabilização do outro seja o complemento da nossa frustração interior por não termos o que achamos que merecemos. A sorte, azar, injustiça ou justiça parecem ser pontos essenciais à justificação dos acontecimentos da nossa vida. Responsabilidade pessoal pela nossa situação? Isso exigiria a mudança, a tão complicada mudança.

Será que não obtemos melhores resultados se nos responsabilizarmos pelo que nos acontece na vida, e assim, ao mesmo tempo que pode ser assustador o encargo que esse pensamento nos incute seria também libertador pensar que está nas nossas mãos a mudança?

Segunda-feira, Outubro 04, 2010

Demónios...


Peguei nele, embrulhei bem embrulhado e entreguei-o. Sem me aperceber que o estava a entregar e que talvez viesse a precisar, enchi-me de tudo o que me estavam a dar e para criar espaço para armazenar tirei-o de mim, embrulhei e entreguei-o…

Quando voltei a olhar para dentro estava cheio e o espaço preenchido, mas com algo inútil, feio e dispensável, enchi o espaço de ódios, maldizer, más resoluções e raivas, enchi com indignações, submissões, tempestades e invejas…


Revoltei-me com a vida. Revoltada somente com uma presença imaginária mas que até tinha rosto e voz. De espada em punho abanei-a violentamente vezes e vezes sem conta, enquanto aumentava o tom da voz para aumentar as consequências e os estragos, até que finalmente parei, sentei-me, pousei a espada e percebi que estava a lutar sozinha, contra uma causa talvez imaginária. Ou talvez contra demónios reais, mas já alojados dentro de mim, tinha espaço para eles…


Peguei e entreguei, tirei para ter espaço para receber, enchi o espaço que esvaziei, lutei e gritei contra demónios, cansada e esgotada saí de mim e olhei para mim e vi que, o que tinha entregue, tinha sido o meu poder…

Quarta-feira, Setembro 29, 2010

Tudo ou Nada



Havia um tempo que tinha tudo e não tinha nada, havia um tempo em que tinha nada e não tinha tudo, havia um tempo que não sabia o que tinha…

Havia um tempo que eu tinha tudo e pediam-me nada, havia um tempo que eu tinha nada e pediam-me nada, havia ainda um tempo que eu tinha tudo não tendo nada, havia um tempo que tinha e nem sabia se tinha tudo ou nada…

Havia um tempo em que me exigiam nada e eu tinha tudo, havia um tempo que me exigiam nada e eu tinha nada, havia um tempo em que me exigia tudo e tinha tudo, havia um tempo que me exigia nada e tinha tudo, havia um tempo que me exigia tudo e tinha nada, havia um tempo que exigia só por exigir e no fundo não exigia nada…

Havia um tempo que pedia nada e tinha tudo, havia um tempo em que pedia tudo e tinha nada, havia um tempo que pedia nada e tinha nada, havia um tempo em que pedia só por pedir e tinha o tudo ou nada…

Havia um tempo que fazia tudo e tinha tudo, havia um tempo em que fazia nada e tinha nada, havia um tempo que fazia nada e tinha tudo, havia um tempo em que fazia tudo e tinha nada, havia um tempo que não sabia o que andava a fazer…

Havia um tempo em que pensava em tudo e tinha tudo, havia um tempo que pensava em nada e tinha nada, havia um tempo que pensava em tudo e tinha nada, havia um tempo em que queria mesmo era não pensar em nada e penso em tudo e tenho nada…

Havia e há sempre um tempo para ter o tudo ou o nada…

Sexta-feira, Julho 23, 2010

Há uma enorme diferença...

Há uma enorme diferença entre fazer o melhor com o que temos e querer mudar o mundo, há uma enorme diferença entre segurar e apertar, há mesmo uma enorme diferença entre remediar e tentar curar.

Há uma enorme diferença entre partilhar e sobrecarregar, há mesmo uma enorme diferença entre apoiar e influenciar, até há uma enorme diferença entre conjugar e sobrepor, como há uma enorme diferença entre esperar e desesperar.

Há uma enorme diferença entre pensar e enlouquecer, até há uma enorme diferença entre prometer e empatar, como há mesmo uma enorme diferença entre acreditar e concretizar, há uma enorme diferença entre melhorar e evoluir.

Há uma enorme diferença entre parar e estagnar, como há uma enorme diferença entre achar e opinar, até há uma enorme diferença entre insistir e pressionar, há uma enorme diferença entre comparecer e estar.

Há e sempre vai haver uma enorme diferença…


Quarta-feira, Junho 30, 2010

Resíduo Emocional

Em menos de uma semana ouvi falar duas vezes em lixo, mais concretamente lixo emocional, alojado na cabeça e no pericárdio, locais estranhos? Não, nada, pelos vistos parecem ser locais comuns de acumulação de lixo, a questão é que das duas vezes me mandaram livrar dele e nada me poderia parecer mais estranho, primeiro por ser lixo e não resíduo e depois porque eu até achava que percebia alguma coisa de gestão de lixos, mas a verdade é que não eram do tipo emocional.

Se o termo lixo baralha e depois de tanta aprendizagem que não existe lixo, porque o lixo para de ter utilidade e hoje em dia, com a evolução dos tempos já só temos resíduos que seja, e então podemos seguir a política dos 3Rs devemos reduzir, reutilizar e reciclar…

Se o devemos reduzir isso implica que temos que parar de absorver, atrair ou até procurar resíduos emocionais, porque por incrível que pareça ele não aparece do nada e às vezes é até produzido por nós, são restos de emoções, é o chamado desperdício, por isso talvez não seja má ideia produzir menos emoções, porque há emoções e há emoções e muitas das emoções que produzimos são simples inseguranças, medos, anseios que com o tempo acabamos por perceber que não passavam disso mesmo, na maioria das vezes não têm causas nem consequências, se desvanecem no tempo e são esquecidos e outras emoções não são nossas, são dos outros porque tudo o que vem de mau lá de fora é normalmente mal dos outros, não nosso.

O que não conseguimos reduzir porque simplesmente existe por produção, deposição ou pré-existência devemos reutilizar, porque a verdade é que na complexidade das emoções às vezes o que parece não é, e o que não parece realmente é, ou seja, algo pode mudar de aparência e utilidade de um dia para o outro, basta-nos apenas ajustar a nossa percepção emocional, porque às vezes as emoções que guardamos em nós podem ter uma utilidade que nunca pensaríamos que poderia ter, podem ser reutilizadas.

Mas, se por outro lado não existir nenhuma reutilização útil, positiva e produtiva, podemos sempre reciclar, reinventando, criando, refazendo, porque a verdade é que com um pouco de criatividade e bom senso o emocional pode tornar-se positivo em vez de negativo, basta inverter, reajustar ou simplificar.

Se assim for lixo pode ser resíduo e podemos criar soluções para a sua gestão desde a produção ou depósito até ao destino final, aliás, extrapolando a ideia, e tendo em conta que haverá sempre resíduos emocionais que não poderão ser nem reduzidos, reutilizados ou reciclados a solução estará no tratamento, como por exemplo, incinerar porque assim reduzimos o seu tamanho e com a sua queima estamos a produzir energia que nos será directamente transmitida.

Resumindo se o problema é lixo/resíduo emocional basta ser criado um bom sistema de gestão porque tudo, mas tudo tem que ter um destino final…