A verdadeira teoria do eu, depois eu e somente eu. Mas, tudo o que quero e espero da vida é medido e exigido de acordo com o tu, depois o tu e somente tu. Tu tens, tu conseguiste, tu tentaste então eu mereço, eu preciso, eu exijo. A parceria do eu e tu, conjugada no nós é linearmente para ser avaliada no eu quero, logo tu tens que, eu preciso, logo tu deves de, e no eu não gosto, por isso tu precisas de.
Os outros e a vivência com os demais passou a ser somente um jogo de interesses, disfarçado por laços de amizade, familiares, profissionais e até sociais. Os direitos e deveres passaram a estar meticulosamente arrumados, os direitos em nós e os deveres no tu, tudo encoberto com palavreados de cortesia, misericórdia fictícia, discursos e suspiros de comiseração e salamaleques de ocasião.
A doença dos outros é incómoda, o nosso esforço é incómodo, a tristeza dos outros é incómoda, mas em contrapartida a nossa doença deveria suscitar auxílio, a nossa falta de esforço deveria suscitar clemência e a nossa tristeza deveria suscitar companheirismo.
Não quero, hoje, fazer nada por ti, por mim, por nós, mas exijo que amanhã estejas pronto a fazer por mim, por ti, por nós. Trabalho, esforço e empenho é para ser praticado pelos outros, por nós basta somente o êxito, o sucesso, a ganância e a bazófia.
A dor, a tristeza, as dificuldades dos outros só servem para juntar ao nosso discurso de exigências, imposições, reclamações e até juízos de valor, para atacar e censurar são sempre bem-vindas as dores alheias, assim aumenta a lista e podemos apontar o dedo com mais material acumulado. O que fizemos, fazemos ou iremos fazer para ajudar o próximo? Possivelmente nada mais do que juntar a sua dor ao nosso discurso justiceiro, depois viramos costas, porque quem tem culpa ou deve agir? Isso, serão certamente os outros.
Os nossos insucessos, falhas e infortúnios têm sempre causas exteriores, o mundo, os outros, a vida. A verdadeira supremacia dos opostos, se estou triste é porque há pessoas felizes, se não tenho é porque alguém deve ter, nada chega, tudo é escasso, se não está, tem que estar em algum lado, a felicidade e o sucesso não são nossa responsabilidade, são simplesmente impedidas pelos factores exteriores.
Nós? Nós somos simplesmente a máscara da nossa existência sem grande responsabilidade e capacidade para o que quer que seja, nós nascemos para receber, porque a vida é vivida com a garantia que merecemos tudo pelo simples facto de existirmos. Existimos, logo merecemos ter tudo o que todos têm, principalmente o que nos é apelativo e queremos muito, o que temos, isso desde que seja inferior ou que alguém tem já não interessa nada, mesmo que seja mais do que outros usufruem.
Imaturidade vivida na sua exaustão e plenitude, não é infantilidade, daquela saudável que nos faz sonhar, não, imaturidade de achar que tudo é fácil, simples e deveria ser dado, fornecido ou entregue simplesmente porque sim, imaturidade ao ponto de fechar os olhos e chamar a negação no seu expoente máximo para que a vida seja somente garantias e dividendos, o resto, isso alguém que fique…
O que nós possuímos, conseguimos, conquistamos? Isso vale muito pouco sempre que ao nosso lado passar alguém que tenha mais, aliás, sobra pouco tempo e não existe grande vontade para pensarmos realmente em nós se estamos demasiado ocupados a ver se alguém possui algo melhor, se alguém conseguiu o que queríamos ou recebe mais da vida.
Já dizia Jorge Palma: “enquanto uns fazem figura outros sucumbem à batota, chega aonde tu quiseres, mas goza bem a tua rota.” A nossa rota será gozada pelos nossos conceitos, ideias e valores, a nossa rota será definida por nós através dos outros, é o entregar de mão beijada o nosso poder e esperar que o mundo saiba tomar bem conta dele, o olhar para fora mais do que olhar para dentro é a pura distorção da imagem do espelho, culpar e responsabilizar os outros pela nossa vida é a solidão na vivência e a desgraça do sucesso pessoal.
Simples discursos de apontar o dedo, bem espetado para a frente sem notar que neste gesto temos sempre 3 dedos a apontar para nós. Se tudo aquilo que dizemos, argumentamos, tudo o que nos queixamos, reclamamos, exigimos fosse dito em frente ao espelho os resultados seriam muito diferentes, por isso mesmo, neste momento vou ler este texto para a frente de um espelho, já volto, espero eu que diferente…