
Tenho medo de perder o que tenho, o que tinha e o que penso ter quando conseguir atingir o que pretendo. Tenho medo do que foge, desaparece e sai de perto sem deixar rasto, tenho medo do que se retira quando já não faz sentido, do que se abandona quando esvazia a alma, tenho medo do que se solta, do recuo das acções e das palavras, do afastamento das sensações e dos sentimentos, tenho medo da negação das evidências e do que voa para longe. Deixarei de ter medo quando perceber que o que desaparece não faz mais falta…
Tenho medo de que surja sem aviso prévio, o que tinha que aparecer e o que ainda poderá romper. Tenho medo do que nasce quando ainda não existem condições para nascer, do que desperta na imensidão da saudade e das lembranças, tenho medo do crescer desmesurado e do brotar excessivo, tenho medo do erguer em sobressalto. Deixarei de ter medo quando entender que tudo aparece por alguma razão…
Tenho medo do que se sente por entre a vida, o que tinha que ser sentido e o que ainda poderá despoletar sentimentos desconhecidos. Tenho medo de sentimentos renovados e de sentimentos desconhecidos, tenho medo de sentir a necessidade de mudança e a perturbação de sentimentos acomodados. Tenho medo do abalo no certo e da perplexidade no diferente. Deixarei de ter medo quando compreender que a vida tem que ser sentida…
Tenho medo do que se fala por aqui e por ali, o que tinha que ser falado e o que ainda poderá ser dito sem o mínimo controlo das palavras. Tenho medo do que é comentado sem fundamento e murmurado sem que se escute. Tenho medo do que é articulado sem cuidado e das verdades que nascem no discurso anunciado, dos dialectos rigorosos ou das palavras ultrajantes. Deixarei de ter medo quando atingir que o que é dito não é a essência…
Tenho medo da crítica construtiva e da ofensiva, o que tinha que ser criticado e o que ainda poderá ser censurado por verdade ou por mentira. Tenho medo da apreciação superior ou inferior dos feitos e dos comportamentos, da censura que impede e retém as vontades, tenho medo dos comentários que inibem e da satiriza que magoa, dos momentos de verdade que advêm do conselho experiente e corajoso de quem já viveu. Deixarei de ter medo quando absorver das críticas o que realmente se aproveita…
Tenho medo do que se faz, o que teve de ser feito e o que ainda pode ser desenvolvido na actualidade dos factos. Tenho medo dos desempenhos eficientes e dos envoltos na desorganização, tenho medo dos desenvolvimentos ordenados e essenciais que permitem a reorganização das ideias e dos comportamentos e da arrumação ajustada para operacionalizar os limites, tenho medo da imitação exagerada que substitui o pensamento próprio. Deixarei de ter medo quando assistir às acções a impulsionarem os feitos…
Tenho medo de um regresso, o regresso que foi invocado e o que ainda pode surgir sem possibilidade de escolha. Tenho medo do retorno de propósitos e procedimentos, da volta de mágoas e espíritos que em tempos completaram os dias, da regressão de ideias e pensamentos pelo inconsciente mal habituado e acomodado, tenho medo do reviver de sensações e da convicção pelo irreal. Deixarei de ter medo quando assimilar que os regressos são solicitados pelo nosso próprio eu interior…

1 comentários:
O medo é tão natural e até necessário! A consciência dele não nos impede de agir e viver, antes nos torna mais conscientes, mais atentos, mais prudentes e perspicazes. Cada final de parágrafo deste texto magnífico já indica como lidarás com cada um dos medos. Tens, em ti, tudo o que é preciso.
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