Sexta-feira, Dezembro 10, 2010

Fingimento...




Esbracejar, gritar, reivindicar os direitos dos mais fracos, dos que precisam, apontar o dedo ao que está errado, atacar os que estão bem, enfrentar as injustiças, encontrar as lacunas, apregoar conceitos reinventados, repreender comportamentos imperdoáveis, zangar pelo infortúnio dos demais. Fingimos que nos importamos com o mundo…

Lembrar os defeitos, colocar em evidência as desventuras e as desvantagens da permanência, anotar as falhas, designar todos os obstáculos, mostrar a completa imperfeição da existência, rejubilar com a partida, exaltar a renúncia e gabar a capacidade de desprendimento. Fingimos que esquecemos quem partiu…

Elogiar as evidências, engolir o orgulho e apreciar o que na verdade desperta cobiça ou indiferença, enfeitar as palavras, as teorias e a aparência, reinventar valores e opiniões, ocultar desprezo e embaraços, elevar atitudes e feitos. Fingimos que apreciamos a existência dos restantes…

Utilizar palavras caras, pensamentos rebuscados e conjunturas elaboradas, questionar decisões alheias e funções variadas, atirar para o ar lógicas óbvias, especulações fictícias e hipóteses irreais, verbalizar demagogias e fabulosas teorias. Fingimos que percebemos alguma coisa do que estamos a falar…

Sorrir de boca fechada, exprimir um olhar de indiferença e de força, cerrar os dentes para não deixar as palavras sair, elevar o pensamento e fazer o que tem que ser feito, atacar a dor interior e o afrontamento exterior, concentrar nos pensamentos necessários e manter a feição semelhante nos diferentes momentos. Fingimos que não magoa…

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